domingo, outubro 08, 2006

[ler] º| Uma flor nasceu na rua |º Pois tHe DrEaMer também é ArTe

Assu, 08 de outubro. Sentando a escrever, lembro de um poema de Carlos Drummond intitulado A Flor e a Náusea, poema este que reflete o desejo de VIVER, mesmo que em meio a tanta desigualdade e falta de fé. Nasce uma flor; nasce a esperança, que SONHA, que VIVE. Leia o texto na íntegra:

A Flor e a Náusea

Preso à minha classe e a algumas roupas,
Vou de branco pela rua cinzenta.
Melancolias, mercadorias espreitam-me.
Devo seguir até o enjôo?
Posso, sem armas, revoltar-me?
Olhos sujos no relógio da torre:
Não, o tempo não chegou de completa justiça.
O tempo é ainda de fezes, maus poemas, alucinações e espera.
O tempo pobre, o poeta pobre
fundem-se no mesmo impasse.
Em vão me tento explicar, os muros são surdos.
Sob a pele das palavras há cifras e códigos.
O sol consola os doentes e não os renova.
As coisas. Que tristes são as coisas, consideradas sem ênfase.
Vomitar esse tédio sobre a cidade.
Quarenta anos e nenhum problema
resolvido, sequer colocado.
Nenhuma carta escrita nem recebida.
Todos os homens voltam para casa.
Estão menos livres mas levam jornais
e soletram o mundo, sabendo que o perdem.
Crimes da terra, como perdoá-los?
Tomei parte em muitos, outros escondi.
Alguns achei belos, foram publicados.
Crimes suaves, que ajudam a viver.
Ração diária de erro, distribuída em casa.
Os ferozes padeiros do mal.
Os ferozes leiteiros do mal.
Pôr fogo em tudo, inclusive em mim.
Ao menino de 1918 chamavam anarquista.
Porém meu ódio é o melhor de mim.
Com ele me salvo
e dou a poucos uma esperança mínima.
Uma flor nasceu na rua!
Passem de longe, bondes, ônibus, rio de aço do tráfego.
Uma flor ainda desbotada
ilude a polícia, rompe o asfalto.
Façam completo silêncio, paralisem os negócios,
garanto que uma flor nasceu.
Sua cor não se percebe.
Suas pétalas não se abrem.
Seu nome não está nos livros.
É feia. Mas é realmente uma flor.
Sento-me no chão da capital do país às cinco horas da tarde
e lentamente passo a mão nessa forma insegura.
Do lado das montanhas, nuvens maciças avolumam-se.
Pequenos pontos brancos movem-se no mar, galinhas em pânico.
É feia. Mas é uma flor. Furou o asfalto, o tédio, o nojo e o ódio.

Carlos Drummond de Andrade

Antes de encerrar esse post, gostaria de oferecer esse poema a Saionara, Waléria, Sinara (ex-alunas), agradecer também a minha eterna Professora Valéria Murtinho, que tanto me incentivou, ao Paulinho Sergio (amigo de teatro) e dizer que em breve publicarei alguns dos meus textos. A todos vocês o meu agradecimento. Só não esqueçam que a Flor furou o asfalto, o tédio, o nojo e o ódio.

Fred Fonseca
tHe DrEaMeR

2 comentários:

Anônimo disse...

Frederico obrigada por nos oferecer este poema, que por conscidência somos fã do poeta Carlos Drummond.Continue arrebentando com seu blog, que mal começou mas já está bombando!!!
Xerão!
Suas sempre alunas Saionara e Cinara!

Anônimo disse...

Agora quero ver um poema de sua autoria,eu sei que vc tem, viu!